“Todo especialista foi iniciante um dia.” - Helen Hayes.
Quem nunca viu alguém com “tempo de casa” ser chamado de especialista? Ou quem nunca viu aquela pessoa que há anos pratica a mesma habilidade, ganha o título de especialista mas não consegue acompanhar o pensamento abstrato sobre um tema do seu domínio de conhecimento?
Na minha experiência prática e observações acredito que sociedade e mercado de trabalho confundem tempo de prática com especialização ou que “tempo de casa” é aceito como um sinônimo de especialista. Será mesmo?
O ser humano é incrível e tem uma capacidade fenomenal de aprendizagem e evolução, porém esse processo não tem a mesma velocidade que gostaríamos e principalmente, não tem a mesma velocidade que é esperada de nós.
Outro ponto é que o processo de aprendizagem não é linear, necessita de prática deliberada, estruturada e orientada por feedback.
A prática de uma habilidade deve ser estruturada e não simplesmente uma repetição. Essa é uma diferença sutil, porém ela é divisor de águas na jornada da especialização.
A prática de uma habilidade deve ser estruturada e não simplesmente uma repetição mecânica.
Maestria e automatização
Vamos refletir sobre três personas.
| Persona | Experiência | Reflexão |
|---|---|---|
| Motorista de carro | Dirigir carro por 15 anos no Brasil | Tempo de direção torna o motorista apto a dirigir na Inglaterra? |
| Músico amador | Tocar piano por 10 anos | Tocar as mesmas músicas permite a evolução da técnica? |
| Programador | Codificar em .NET 3.5 durante 20 anos | Isso torna o programador um especialista em .NET? |
As três personas tendem a ser muito boas no que fazem, desenvolver as atividades com velocidade e com muito propriedade, porém, aqui está uma armadilha.
Fazer uma tarefa muito bem não significa maestria nem ser um especialista.
- Para uma motorista de carro brasileiro dirigir na Inglaterra é necessário o desenvolvimento de visão espacial, coordenação motora, neuroplasticidade e conhecimento das regras e simbologia inglesa de trânsito.
- Para um músico amador estar apto a tocar em uma orquestra ele precisa desenvolver a capacidade de leitura de partituras, interpretar os sinais do maestro e tocar no tempo da música.
- Para um programador .NET desenvolver uma aplicação .NET em 2025 ele precisa conhecer o que foi incorporado no framework, novos estilos de programação e incorporar novos paradigmas da linguagem.
Maestria faz parte da jornada
Quando temos práticas deliberadas, estruturadas e orientada a feedbacks, então temos uma caminho para a maestria.
- Assistir um vídeo no YouTube sobre como trocar um chuveiro elétrico não torna uma pessoa em um eletricista.
- Aprender a montar um ESP32 para controlar um dispositivo com infravermelho não torna a pessoa em um desenvolvedor de hardware.
- Construir uma página estática com
Lovablenão torna a pessoa um desenvolvedor de software.
A busca do conhecimento e experiências ampliam o repertório e fazem parte da jornada mas a maestria exige profundidade, exposição a diferentes contextos, tomada de decisão em situações reais e principalmente consistência ao longo do tempo.
A maestria de um eletricista está em conhecimento prático e teórico da eletricidade, nas horas de prática, na aprendizagem constante de novas técnicas, equipamentos e ferramentas. Essa exposição prática a múltiplos cenários (residencial, corporativo, industrial), projetos pequenos e rápidos, projetos grandes e longos, projetos com pouco orçamento ou projetos com muito orçamento. Está na tomada de decisões. Está nos erros cometidos na jornada, no enfrentamento, na análise, na identificação de padrões e principalmente na aprendizagem com eles.
Mesmo quando a maestria é alcançada, ela ainda opera dentro de um contexto conhecido e limitado. É nesse ponto que muitos profissionais param de evoluir e é também onde começa a diferença entre maestria e especialização.
Especialização e o domínio de múltiplas habilidades
Ter maestria em uma habilidade não torna a pessoa um especialista no domínio daquela atividade.
- O cirurgião com maestria no uso de um bisturi não torna-se automaticamente um especialista em cirurgia.
- O desenvolvedor de software com maestria na entrega de funcionalidades complexas em um determinada aplicação de negócio não torna-se um especialista em desenvolvimento de software automaticamente.
Ser especialista é integrar de forma consistente múltiplas habilidades interdependentes, aplicadas em contextos reais.
A integração consistente de múltiplas habilidades usando conceitos, técnica, julgamento, experiência prática e responsabilidade formam um sistema de competências. É esse sistema que permite ao especialista enxergar padrões, reconhecer exceções, antecipar riscos, fazer leitura de cenários, atuar em cenários desconhecidos, abandonar práticas, desenvolver novos modelos mentais e tomar decisões sob incertezas ou abstrações.
É nesse cenário que surge o verdadeiro papel do especialista, integrando múltiplas habilidades interdependentes para atuar em situações onde a maestria técnica isolada já não é suficiente.
Ser especialista não é apenas ter uma habilidade, é saber quando, por que e em qual contexto aplicá-la.
- Um cirurgião precisa ter no seu sistema de competências técnicas operatórias, conhecimento de procedimentos, instrumentação, leitura clínica, trabalho em equipe, ética entre outras habilidades.
- Um desenvolvedor de software especialista precisa ter no seu sistema de competências habilidades de arquitetura, leitura de código, bases conceituais e práticas de programação, análise de impacto, discernimento na tomada de decisões e escolhas, conhecimento do negócio entre outras habilidades.
Para entender por que poucas pessoas avançam da maestria para a especialização, vamos observar a consciência de competência.
Consciência da Competência e Incompetência
Existem inúmeros métodos e práticas para o desenvolvimento de novas habilidades. Uma prática muito conhecida e difundida é a Matriz da Competência Consciente/Inconsciente, descreve as fases psicológicas pelas quais um indivíduo passa ao aprender uma nova habilidade. Essa matriz, popularizada por Noel Burch na década de 1970, divide o processo em quatro estágios distintos.
Incompetência Inconsciente
Neste estágio inicial, o indivíduo não sabe que não sabe. Ele desconhece a existência da habilidade ou não percebe sua própria deficiência nela.
Incompetência Consciente
O indivíduo reconhece sua falta de conhecimento ou habilidade. Torna-se consciente de sua inaptidão e da necessidade de aprender, o que pode gerar desconforto ou frustração, mas também a motivação para buscar desenvolvimento.
Competência Consciente
Através de prática, estudo e esforço, o indivíduo adquire a habilidade. Ele consegue realizar a tarefa corretamente, mas isso exige concentração e esforço deliberado.
Competência Inconsciente
Com a prática contínua e a aplicação repetida, a habilidade se torna natural e automática. O indivíduo executa a tarefa com proficiência, sem a necessidade de atenção consciente ou esforço excessivo.
Como vou saber de algo que eu não sei?
A pergunta que fica é ”Como vou saber de algo que eu não sei?”
Seguindo o que é proposto pela Matriz de Competência Consciente/Inconsciente precisamos avançar para o segundo quadrante, que é a incompetência consciente e uma das melhores formas de alcançar ele é através do desenvolvimento de Repertório e aquisição de Referências.
Ampliamos a consciência sobre o que não sabemos quando expandimos nosso repertório e adquirimos novas referências.
Exemplos
Existem exemplos bacanas que demonstram isso na prática.
Steve Jobs e a tipografia em computadores
Antes do Macintosh, Steve Jobs fez aulas de caligrafia na faculdade. Ele atribuiu a essa disciplina a sua atenção ao design e estética da tipografia nos computadores da Apple.
Samuel Morse
Samuel Morse estudou desenho e pintura por muitos anos. Essa formação artística permitiu disciplina visual, noção de síntese e pensamento simbólico.
Quando estudou eletricidade, a aplicação da visão e pensamento simbólico fomentou a criação do código morse e telégrafo.
Uma nova pergunta surge
Se o repertório e referências ampliam a consciência e sustentam a especialização, então surge uma pergunta complexa: “O que realmente são Repertório e Referências e como desenvolvê-los ao longo da jornada?”.
Repertório & Referências
Embora muitas vezes os termos são relacionados, eles possuem papéis distintos. Vamos iniciar definindo o que é Repertório e Referências.
Definição
Referências
É um registro externo, algo que é consultado ou citado.
Exemplos:
- Livros.
- Artigos.
- Vídeos.
- Palestra.
- Filmes.
Repertório
É o acúmulo interno de tudo que foi vivido, estudado, observado e experimentado.
Exemplos:
- Conhecimento.
- Vivências profissionais.
- Experiências culturais e artísticas.
- Sucessos e Erros.
- Intuição formada pela experiência prática.
Síntese sobre Repertório & Referências
Referências são externas e Repertório é interno.
Podemos consumir referências sem que elas se tornem parte do repertório, como por exemplo, assistir a uma palestra ou documentário e esquecer o seu conteúdo.
Agimos com base no repertório mesmo sem lembrar da referência.
Referências alimentam o Repertório. O Repertório dá sentido as referências.
Jornada do Especialista
A jornada do especialista ela é árdua e não tem atalhos. A formação, qualidade e diferenciação do Especialista está diretamente ligada a vivência da jornada.
Começamos acreditando que tempo de experiência basta; descobrimos que maestria isolada não é suficiente; terminamos entendendo que o que realmente sustenta a especialização é o repertório e não o tempo cronológico.”
Estratégias para Jornada
Compartilho três estratégias que utilizei, utilizo e seguirei utilizando durante toda a minha jornada.
Referências multidisciplinares
O conhecimento é abundante e diverso. Nem sempre sabemos como e quando vamos utilizá-lo. A mágica acontece quando os pontos se conectam e as coisas fazem sentido. Aquela referência passada sobre contabilidade e financeiro durante uma migração de um ERP se conectam no momento atual e permitem enriquecer uma discussão sobre o desenho de uma solução de pagamento, identificam riscos, impactos e agregam valor.
As aulas de física do ensino fundamental falavam sobre MRU (movimento retilíneo uniforme) e MRUV (movimento retilíneo uniforme variável), como em um passe de mágica, se conectam durante o planejamento de uma solução de detecção de velocidade de carros em garagens condominiais através de filmagens.
Steve Jobs, no incrível discurso em Stanford falou:
“Você não consegue ligar os pontos olhando pra frente; você só consegue ligá-los olhando pra trás. Então você tem que confiar que os pontos se ligarão algum dia no futuro. Você tem que confiar em algo – seu instinto, destino, vida, carma, o que for. Esta abordagem nunca me desapontou, e fez toda diferença na minha vida.”
Recomendações
- Aprenda sobre diferentes áreas do conhecimento, principalmente filosofia.
- Assista diferentes estilos de filmes.
- Escute estilos musicas diversos.
- Assista vídeos de economia, finança, psicologia, matemática, histórica, astronomia.
- Consuma conteúdo antagônicos, que gerem antíteses para as respectivas teses.
Critique, Investigue, questione e faça a sua própria conclusão
Acredito que o conhecimento nunca tenha sido tão acessível e disponível. Em diferentes canais e formas de consumo é possível aprender música, filosofia, matemática, história, programação e qualquer outra disciplina. A quantidade de referências é abundada. Junto com essa abundância vem gurus, mestres, especialista e tudo mais o que se possa imaginar. O vídeo com propriedade, a foto da viagem, a pose de sucesso, o discurso forte entre muitos outros exemplo.
Critique, investigue, questione e faça a sua própria conclusão
Recomendações com base em exemplos.
- Se um consultor financeiro promete te ajudar a sair das dívidas, critique o valor cobrado, investigue se ele possui suas finanças organizadas, questione as estratégias e o seu por que. Adquira as referências, crie o seu repertório e faça a sua própria conclusão.
- Se um guri do mercado financeiro promete retorno acima da média, critique o resultado apresentado, investigue as técnicas e estratégias que o diferenciam dos demais, questione e peça o pagamento das suas DARFs. Adquira as referências, crie o seu repertório e faça a sua própria conclusão.
- Se uma pessoa diz que é fácil iniciar um negócio próprio critique o negócio criado, investigue o tamanho, o tempo de vida do negócio, o seu crescimento, questione como os recursos inicias foram obtidos, como foi o início, quais foram os erros. Adquira as referências, crie o seu repertório e faça a sua própria conclusão.
Aprenda com seus erros de forma genuína
O erro é complexo, com impactos sociais e psicológicos. Temos medo de errar, medo de fazer algo que prejudique alguém, alucinamos o que as pessoas pensam de nós quando erramos. Tudo isso fica na imaginação até que erramos. É difícil admitir o erro. É mais difícil ainda falar sobre ele. É difícil pedir desculpas. É uma mistura de sentimentos de incompetência, fracasso entre outros. Por mais que racionalmente isso seja uma verdade, podemos encarar o erro com outra perspectiva e aprender com ele. Falar sobre o erro, fazer o post-mortem, ser autêntico no entendimento além de libertador, nos faz crescer e evoluir. De fato, nos ensina algo novo, sempre. Minimamente, seremos melhore.
O erro é o maior professor.
Recomendações
- Quando errar, respire fundo e curta o momento. Aceite o erro, vivencie ele.
- Após curtir o momento, reflita sobre ele, entenda o caminho e o que levou até ele.
- Use a estratégia Critique, investigue, questione e faça a sua própria conclusão.
- Peça desculpas a quem tiver que pedir, desde que faça sentido.
- Compartilhe a sua experiência com outros.
Experiência própria
Para exemplificar, compartilho uma experiência de 2025, onde a minha atuação como liderança técnica de um time falhou com maestria.
Esse é o vídeo da palestra onde compartilhei toda a jornada, desde a minha percepção, decisões, o impacto nas pessoas e o triste desfecho da história.
Da maestria para a Especialização
Durante a jornada existem diversos pontos de inflexão e um desses pontos é quando a maestria isoladamente não é mais o suficiente. Não basta resolver o problema de complexo de um único sistema ou de um único módulo de um grande sistema. Não basta saber na ponta dos dedos todas as mesmas músicas. Não basta ter habilidade e precisão com o bisturi. Não basta saber dirigir muito bem em um único lugar. Não basta ter velocidade ou conhecimento profundo em .NET 3.5. Esse é o ponto de inflexão onde o especialista emerge de fato. Não como alguém que executa com excelência mas como quem integra múltiplas habilidades, lê contextos, reconhece padrões e decide sob incerteza. É justamente o cenário onde a maestria técnica, sozinha, não alcança. As estratégias discutidas ao longo do texto são o que tornam essa integração possível e sustentável ao longo do tempo. É por meio delas que a consciência se expande, o sistema de competência se consolida e gradualmente, ocorre a transição para especialização.
Síntese
Ser especialista em algo é complexo, leva tempo e exige muita dedicação. Sempre que possível trabalhe para desenvolver um conjunto de habilidades em uma área ou domínio que goste. Se for algo onde atua diariamente certamente a jornada torna-se mais divertida e prazeroso.
Comece do início e de pequenos passos, assim como uma bebê que está aprendendo a caminhar. Estruture um plano e execute. Critique, investigue, questione e faça a sua própria conclusão. Adquira referências multidisciplinares. Trabalhe para desenvolver os seus repertórios.
E por fim lembre-se “Todo especialista foi iniciante um dia”.
Seja paciente, seja persistente.

